O MUNDO DE CADA UM

“A máquina do mundo se entreabriu para quem de rompê-la já se esquivava e só de tê-lo pensado se carpia”
                      A máquina do mundo – Carlos Drummond de Andrade

   Quando em momentos ímpares de nossas vidas experimentamos o doce ou amargo da vida nos damos conta que as pessoas e as coisas nos limitam, sugam vontades, desejos, esperanças e nos transformam em sujeitos cheios de medos, angústias, de vazios, de sensações que somente um verdadeiro amor poderia apagar marcas, traumas que sofremos ao longo de nossa existência.
   Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lea de Mela Schultz são exemplos nítidos destes processos tão duros que a vida impõe.
   Personagens do livro de Lygia Fagundes Telles, as meninas discute as relações familiares, os diversos poderes que atuam no indivíduo e com a sociedade reflete estas condições. Ligia cria três dimensões respectivamente: a do direito, a da psicologia e a das ciências sociais através de Lorena que sempre intervem nas ações desenvolvidas na trama que representa a ordem àquela que julga sentencia é a número “um”, a que nomeia ocultamente o capítulo, pois se apresenta como a mais importante e, portanto deve ser considerada como “um”; com Ana Clara o sobrenome contradiz o universo psicológico da personagem, menina que apresenta uma origem duvidosa, sexualidade abalada, seus traumas e ilusões a torna frágil, facilmente manipulada pelo namorado Max. Ela representa as emoções, a tentativa de centramento, às frustrações que ironicamente diverge do curso que estuda: psicologia. Possivelmente uma tentativa desesperada de entender a si e aos outros, uma forma de livrar-se dos traumas o que não acontece e termina num fim trágico e solitário após a morte de overdose no quarto de Lorena é levada pelas amigas para uma praça, á ela Ligia atribui o capítulo “dois” como cenários o quarto e sua cama, Ana Clara e Max, dois indivíduos duas possibilidades, a mudança ou a permanência. Tão confusas são as relações de Ana que ela ganha alcunha de Turva pelas amigas. Seus sonhos estão no plano do fantasioso, do onírico: ascensão através da psicologia, no casamento de um homem possivelmente inexistente, em uma cirurgia que repararia todas as marcas de um passado de abuso e abortos.
Ligia é a revolucionária, a que foge de um passado de uma mãe superprotetora e de um pai misterioso, ex-oficial nazista. Estuda ciências Sociais, é militante e apaixonada por Miguel que é preso, é a mais centrada resolve-se sozinha. Ao projetar essas três personagens Ligia cria microcosmo, ou seja, uma menor medida do mundo as meninas representam setores: a sociedade, a política e a família, ao avançar sobre o “EU” de cada menina ela discute ideologias, verdades, horas, etc. apresentando tensões em sua narrativa, fazendo do homem (menina) sua própria medida. Então o pensionato N. Senhora de Fátima representa a miniatura do universo do Brasil, da década de 60, da ditadura militar, dos medos e desejos do povo, da gente que quer apenas viver e amar. Neste, microcosmo temos pequenos mundos, pequenas esferas que são os quartos, mas principalmente o de Lorena que é dourado e rosa dando status tradicionalidade, requinte e candura, meiguice, ingenuidade; um refugio um oásis em meio ao tumulto do mundo externo e eliminando as dores do mundo interno.
Oniscientemente nasce o narrador que observa que a fala que permite desnudar o inconsciente e ainda nos permite chegar ao verdadeiro foco: uma analise aprofundada de nossas ações, dos traumas que causamos, das relações que poderiam ser melhores, mas são podadas por dinheiro, tradição, vergonha, medo e não nos permite sermos felizes, livres.
Em linguagem confessional a esperança é mínima de ver raiar o sol dos valores, mas individualmente oferto meus valores a maquina do mundo.
   
                                 Por Josianne P. Pinto.
                                                                             10/01/08